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Vantagens Económicas das Medidas de Racionalização Energética na Indústria

Enquadramento 

A eficiência energética está na ordem do dia, constituindo uma área de intervenção cada vez mais presente e relevante na definição das estratégias e políticas nacionais. A energia assume-se como um elo vital da economia, encontrando-se na génese de grandes empresas mundiais, capazes de dinamizar a inovação tecnológica necessária na procura de novas soluções energeticamente mais eficientes.

São visíveis, e cada vez mais disseminados na nossa realidade atual, os reflexos de tais desenvolvimentos como a produção descentralizada de energia mais limpa de origem renovável, os processos de conversão energéticos cada vez mais eficientes ou as diferentes alternativas tecnológicas de transporte que assumem um papel cada vez mais relevante no nosso quotidiano, numa procura incessante de aumentar a eficiência energética e, desta forma, minimizar a dependência energética externa de um recurso que assume um papel preponderante na estrutura de custos do nosso país.

Não obstante a diversidade de estratégias neste domínio que têm sido colocadas em prática, tem-se assistido a um crescimento contínuo do consumo energético nos diferentes setores de atividade, com especial preponderância nos setores dos edifícios e transportes. Também no setor da indústria, e em particular no setor da metalurgia e fundição, a energiaassume um papel fulcral que urge controlar e otimizar recorrendo a estratégias de eficiência energética, críticas para a sustentabilidade dos negócios e para a competitividade das empresas.

A eficiência energética como pilar de sustentabilidade das empresas é retratada neste artigo com base na análise de um histórico de oportunidades de otimização energética que resultam de mais de uma centena de auditorias energéticas em diferentes setores de atividade, particularizando-se o setor de atividade metalúrgico e da fundição.

 

Projetos de Eficiência Energética

A implementação de soluções de eficiência energética encontra usualmente diferentes entraves à sua concretização, decorrentes de vários fatores, entre os quais, o fato de a energia não ser assumida como uma variável de custo relevante no produto final, pela falta de cultura organizacional direcionada para a gestão de energia, pelo contexto de incerteza económica que privilegia exclusivamente projetos com retorno quase imediato, ou pela inexistência de mecanismos de financiamento adequados.

A falta de cultura organizacional é explicada pela desconfiança existente na adoção de alternativas tecnológicas, em que as empresas muitas vezes são incapazes de conceber projetos devidamente dimensionados, com incapacidade de projetar os resultados expetáveis e assegurar a sua concretização. Não menos importante, é a frequente incapacidade demonstrada pela gestão de topo no entendimento dos projetos de eficiência energética, dificultando a tomada de decisão, pela ausência de argumentos financeiros credíveis que fundamentem a sua viabilidade.

Em parte, os bloqueios à melhoria da eficiência energética são ultrapassados pelo conhecimento da forma como se processa o consumo, permitindo apresentar argumentos que fundamentam não só a identificação da oportunidade, mas também a concretização dos resultados assentes em metodologias transparentes de medição e verificação de resultados. Neste aspeto ganha especial relevância a existência de sistemas de monitorização dos consumos de energia como garantia de sucesso dos projetos que permitem identificar os desvios de consumos e a obtenção de informação que permite melhorar as opções de gestão – de manutenção, operacional ou previsional. A transformação digital tornou-se um pilar fulcral na construção da vantagem competitiva, sendo fundamental que as fábricas tenham uma visão global do processo de produção, respondendo desta forma à intensa competitividade dos mercados globais e à necessidade da constante adaptação à mudança.

A tomada de decisão sobre os projetos de eficiência energética deve assentar sobre um conjunto de informação que decorre de uma avaliação económico- financeira sustentada, das soluções propostas ao longo do tempo numa lógica do custo do ciclo de vida em detrimento de análises financeiras mais simplistas, que por não levarem em consideração aspetos financeiros relevantes, não garantem a confiança dos decisores para avançar com os investimentos.

O compromisso e a capacidade de concretização dos objetivos propostos por empresas de engenharia suportadas em metodologias de abordagem adequadas e de experiência comprovada em situações semelhantes constituem também um garante de projetos de eficiência energética bem- -sucedidos.

A eficiência energética de uma solução é um processo permanente de avaliação de condições e ajuste às situações ideais de operação, pelo que ganham relevância neste aspeto as equipas multidisciplinares de gestão de energia que analisam a informação digitalizada.

Além das poupanças de energia e da redução da fatura energética, o valor acrescentado da eficiência energética pode também ser traduzido em aumentos de produção, melhoria da qualidade do produto ou serviço e consequentemente na rentabilidade da empresa.

O entrave ao financiamento do investimento pode ser ultrapassado pela celebração de um contrato de gestão de energia em que os riscos financeiros e de exploração são partilhados com empresas fornecedoras de serviços de energia e/ou eficiência energética.

 

Indicadores Energéticos e Gestão da Energia

As ferramentas de gestão da energia disponíveis no mercado, permitem que os vários níveis de operação de uma indústria definam indicadores de performance. Estes indicadores, tradicionalmente chamados como Key Performance Indicators (KPI), são ferramentas essenciais (indispensáveis) para conduzir qualquer negócio de forma rentável e sustentada. De uma forma transversal é possível definir indicadores energéticos em todas a organizações para o correto entendimento da relevância dos diferentes consumidores na fatura energética, para a avaliação do potencial de redução do custo energético e o acompanhamento das metas estabelecidas de redução de consumos.

Os indicadores energéticos assentam em informação de negócio recolhida em chão de fábrica para os diferentes consumidores associados ao processo industrial, mas também aos processos auxiliares. No quadro da figura 1 encontram-se alguns exemplos de indicadores (genéricos e específicos) que devem ser recolhidos e analisadas numa vertente de melhoria contínua da eficiência energética das instalações.

 

O gestor de energia deve estar claramente ligado aos decisores de uma indústria em diferentes níveis de intervenção: na definição do plano estratégico para a energia, na análise da evolução da produção e nas atividades de reporte da performance energética da instalação, devendo para isso ter acesso às ferramentas que o ajudem a cumprir os objetivos estratégicos de energia, manter os indicadores energéticos e rentabilizar os investimentos realizados ou por realizar.

A certificação energética das instalações de acordo com a norma ISO 50001 revela a adoção de práticas eficientes de gestão de energia, que assentam no conhecimento provenientes dos sistemas de gestão de energia (SGE) e análise contínua dos indicadores energéticos que permitem a elaboração de estratégias eficientes de planeamento energético visando a redução dos consumos energéticos.

 

Análise de Histórico de Dados Energéticos

Na análise de um histórico de consumos da atividade industrial com 390 ktep auditados em Auditorias SGCIE, o Setor da Metalurgia e Fundição apresentou um potencial de economia média de 12,8%, desagregadas por tecnologias de consumos identificados na figura 2.

As Medidas de Utilização Racional do Consumo de Energia (MUREs) identificadas apresentam um elevado potencial de economia quando se avalia o seu impacto no consumo das tecnologias onde se inserem (figura 3).

Os valores apresentados referem-se a uma amostra de consumo de 47 ktep, com economias identificadas de 6 ktep, representando em média para cada instalação uma poupança anual de 16 k€, conseguido através de um investimento médio por instalação de 60 k€, com um período de retorno simples do investimento (PRI) estimado em 3,7 anos.

A realização de estudos mais detalhados em setores específicos de consumos, orientados para as tecnologias auxiliares (ar comprimido, arrefecimento de processos, ventilação), que são efetuados em Diagnósticos Direcionados, permitiram identificar oportunidades adicionais que resultaram em poupanças anuais de 85 k€, para um investimento médio por instalação de 222 k€, permitindo um retorno do investimento de 2,6 anos. Os projetos de eficiência energética apresentados, se avaliados como um projeto único com duração de 10 anos, apresentam uma Taxa Interna de Rentabilidade (TIR) superiores a 15%.

 

Para o setor em análise encontram-se diferentes alternativas para rentabilizar investimentos financeiros em economias de energia, com especial incidência em:

• Recuperações energéticas de sistemas;

• Gestão otimizada dos sistemas e equipamentos;

• Isolamento térmico de equipamentos;

• Substituição por equipamentos de melhor desempenho energético;

• Substituição de combustíveis;

• Remodelação de centrais dos sistemas auxiliares;

• Sistemas de tratamento de informação, relação, controlo e gestão da energia.

Estas medidas ocupam os primeiros lugares atualmente, para investimentos com TIR superior a 15%.

Existem medidas adicionais e específicas para a o setor, que dependem do estado atual do processo de fabrico e da capacidade de digitalização e analítica de dados. Ou seja, a capacidade de retirar informação do processo produtivo e relacioná-la com engenharia e equipamentos mais adequados ao desenvolvimento do setor (ou futuro). Na análise financeira dos projetos tem de ser considerada a evolução expectável nos custos da energia através da análise de cenários macroeconómicos.

Para a implementação de projetos financeiros em eficiência energética encontram-se disponíveis alternativas financeiras aos capitais próprios, desde fundos privados, a banca (disponível para projetos com TIR e VAL interessantes, risco e garantias controlados) e financiamento ao upgrade tecnológico com fundos dos programas P2020.

 

Conteúdo retirado de artigo: 
Revista Fundição | Publicação  Trimestral | Nº 287 |Dezembro 2018
Autores:
 Pedro Lima
 Diretor de Área de Inovação, Desenvolvimento e Formação na ccenergia  

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