Eficiência energética: Uma mudança de Paradigma

A sustentabilidade ambiental é já um mote antigo das últimas décadas, refletido e incorporado na sociedade em geral, como um objetivo ficcionado ainda que sem grande substância ou concretização. Com o passar dos anos esta conceção tem vindo a desfazer-se, perdendo a sua capa meramente ideológica, tornando-se, por fim, percetível a sua importância para o desenvolvimento e competitividade das nações, empresas e particulares. Ganha agora novamente destaque em Portugal, não só ao abrigo do compromisso de neutralidade carbónica assumido pelo Estado até 2050, como do Plano Nacional Energia Clima (PNEC), como também do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que a identifica, inclusivamente, na vertente de Transição Climática,  como uma das três dimensões estratégicas estruturantes para a retoma socioeconómica de Portugal.

Mais importante que a definição ou formato de apresentação desta “transição climática”, onde todos os mecanismos para atingir o objetivo serão benéficos, importa salientar a importância de salvaguardar a “eficiência energética” enquanto parte fulcral de uma estratégia de sucesso.

Por definição e de forma sucinta, a eficiência energética diz respeito a medidas para reduzir os custos com energia, mas também a medidas que visam a criação de valor, aumentar, os níveis de produtividade e eficiência através da implementação de tecnologias e da redefinição de processos e procedimentos.

Assistimos já a uma mudança na cultura organizacional no que diz respeito à gestão da energia e à compreensão da abrangência das medidas de eficiência energética e da sua importância para a competitividade das empresas e entidades. No entanto, apesar de todos estes benefícios associados e dos bons rácios de viabilidade financeira, existe ainda uma dificuldade na proliferação e implementação de medidas de eficiência energética em todo o tecido empresarial, que, porventura, por receio ou desconhecimento, ainda dá primazia a outras oportunidades ou soluções.

O atual paradigma da sustentabilidade energética centra-se em torno das energias renováveis – o que, num país com as características naturais de Portugal, era premente. No entanto, esta difusão das energias renováveis tem vindo a ser também o calcanhar de Aquiles da implementação de medidas de eficiência energética, em particular, no seio empresarial em Portugal.

A “facilidade” das energias renováveis e o custo de oportunidade praticamente imbatível, levaram à total desconsideração da necessidade de tornar mais eficiente o que já existe! E é essa a grande arma da eficiência energética. O desenvolvimento de uma cultura de eficiência baseada na necessidade de criar e desenvolver soluções! Pilares basilares para o sucesso e aumento de competitividade de qualquer empresa de sucesso!

Na versão de consulta pública do Plano Recuperação e Resiliência (disponível através do link: https://bit.ly/3xg3Ppq), documento estratégico elaborado pelo Governo Português, que contempla as reformas estruturais e investimentos fundamentais que, neste período de crise pandémica, pretendem assegurar a retoma do crescimento económico sustentado, são percetíveis os sinais do crescente reconhecimento da importância de investimentos ESG (Environment, Social and Governance) que se afastam da mera análise financeira dos investimentos e incorporam a componente social e ambiental dos mesmos.

Outro exemplo do crescente destaque com a questão da eficiência energética, é visível nas componentes de “Descarbonização da indústria” e de “Eficiência Energética em edifícios” previstas no PRR, permitindo, desde já, antever a inclusão de parâmetros referentes à questão da sustentabilidade nos diversos programas comunitários de apoio e financiamento que deverão ser publicados.

É, por isso, de prever que as despesas incorridas com a implementação de processos e/ou procedimentos de eficiência energética, venham a ser elegíveis no âmbito destes programas comunitários e demais medidas de apoio, que visem atingir os objetivos de sustentabilidade e cumprir o compromisso de neutralidade carbónica assumido pelo Governo Português para 2050.

É expectável que, face aos elementos apresentados nos programas anteriormente referidos, que indiciam a saída da sombra das medidas de eficiência energética no processo de transição climática, estejamos no limiar da mudança do paradigma da eficiência energética em Portugal. 

Em particular se, por fim, com a equiparação dos benefícios atribuídos a implementação de medidas de eficiência energética aos atribuídos, por exemplo, às energias renováveis, será finalmente possível, atendendo à acrescida viabilidade financeira que os projetos poderão atingir, proceder à implementação mais generalizada de soluções e medidas de eficiência energética. Esta expectável mudança de prisma irá permitir, não só, dinamizar a mudança na cultura organizacional ao nível da gestão de energia, como ainda criar, finalmente, as oportunidades para a implementação de medidas anteriormente negligenciadas em virtude do custo-oportunidade de outros investimentos comparticipados. 

Este momento único de antevisão, permitirá a alguns aproveitar rapidamente esta oportunidade e, assim, ganhar um avanço concorrencial significativo. Importa, assim, que as empresas se preparem e desenvolvam, desde já, uma estratégia de longo prazo no que diz respeito à gestão de energia que acompanhe o quadro de Transição Energética que se afigura.  Importa ainda que estejam cientes das medidas de apoio e financiamento disponibilizadas para que, através, nomeadamente, dos mecanismos de financiamento comunitários, consigam diminuir o período de retorno dos investimentos realizados na implementação de medidas de eficiência energética, ao mesmo tempo que contribuem para a diminuição dos custos operacionais, asseguram aumentos de produtividade, aumento da competitividade e, não menos importante, para uma sociedade mais verde.